Cultura

Museu da Imprensa resgata histórias de mulheres pioneiras na construção de Foz do Iguaçu

Livro com 23 entrevistas reúne memórias de personagens que marcaram a história social, cultural e econômica da cidade e está disponível para acesso online.

Luana Kampmann

Luana Kampmann

09 de março de 2026
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Museu da Imprensa resgata histórias de mulheres pioneiras na construção de Foz do Iguaçu

A trajetória de mulheres que ajudaram a construir a história social, cultural e econômica de Foz do Iguaçu ganha destaque no acervo do Museu da Imprensa. O espaço reúne registros digitalizados de personagens femininas de diferentes épocas que tiveram papel importante na formação da cidade.

São histórias de pioneiras — no sentido literal e simbólico da palavra — que participaram ativamente da construção da comunidade local. Muitas delas foram as primeiras a exercer determinadas atividades ou a ocupar espaços historicamente associados aos homens, em períodos marcados por uma organização social bastante diferente da atual.

Parte dessas histórias está reunida no livro Foz do Iguaçu: Retratos, editado pelos jornalistas Chico de Alencar e Silvio Campana. Publicada em 1997, a obra apresenta 23 entrevistas com mulheres que narram suas experiências de vida e, ao compartilhar memórias pessoais e familiares, ajudam a revelar como a comunidade foi se estruturando na região de fronteira.

Entre os relatos está o da professora Ilka Agripina Vera, que iniciou sua trajetória no magistério ensinando filhos de trabalhadores envolvidos na construção da Usina São João, no Parque Nacional do Iguaçu. Em 1947, passou a atuar definitivamente na área da educação, na Escola Bartolomeu Mitre. “O principal segredo do sucesso do professor é cativar os alunos”, afirmou na entrevista.

Outra história marcante é a de Nina Moreira Andrion. Inicialmente resistente à mudança para Foz do Iguaçu — por causa de rumores de que as pessoas na região sofriam com feridas que não cicatrizavam — ela acabou se estabelecendo na cidade, onde alimentou operários que trabalhavam na Estrada das Cataratas e na BR-277. Posteriormente, iniciou atividades comerciais, atravessando o rio de barco a remo para comprar produtos alimentícios na Argentina e revendê-los em Foz.

As memórias da pioneira Marieta Schinke também integram o livro. Em seu depoimento, ela relembra o movimento de embarcações pelos rios da região, fundamentais para o comércio e abastecimento nas primeiras décadas do século 20, além de episódios históricos vividos na cidade. Entre as recordações, destacou um momento inusitado: “Dancei uma valsa com Santos Dumont”, contou, referindo-se à visita do aviador à paróquia local em 1916.

A obra reúne depoimentos de Agnese Betio Giovenardi, Amanda Fritzen Holler, Conceição Ferreira Araújo, Crecencia Roth, Afra Roth, Djanira Rafaela, Elma Wandscheer, Elfrida Engel Nunes Rios, Érica Welter, Filomena Rafagnin, Helena Lacki, Ilka Agripina Vera, Irena Kosievitch, Letícia Pasa Leopoldino, Madalena Aquino Martins, Maria Inês Mazzacato Maran, Maria Odete Rolon, Marieta Schinke, Nina Moreira Andrion, Ottília Ignez Werner Friedrich, Ottília Schimmelpfeng, Rosália Dias e Rosa Cirilo de Castro.

O livro está disponível para leitura online no acervo digital do Museu da Imprensa.

Sensibilidade do olhar

Uma das responsáveis pela construção do Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu, a fotojornalista Áurea Cunha afirma que o projeto também tem como objetivo evidenciar o esforço de mulheres para ocupar diferentes espaços na sociedade. Ao mesmo tempo, ressalta que a iniciativa contribui para lembrar aquelas que tiveram suas histórias silenciadas.

Durante pesquisas realizadas para o museu digital, um episódio em especial chamou sua atenção. “Encontrei o caso de feminicídio da adolescente Rejane Dal Bó, em 1977, com apenas 16 anos, morta a tiros pelo ex-namorado. Ontem, como hoje, a sociedade não pode fechar os olhos para o assassinato de mulheres, até que esse crime seja erradicado”, destaca.

A temática de diversidade e gênero também permeia o trabalho de Áurea Cunha. Ela é autora da exposição Todas as Cores do Mundo, que retrata mulheres de Foz do Iguaçu e da região trinacional. A mostra apresenta 43 mulheres de diferentes idades, classes sociais, profissões, religiões e níveis de escolaridade, promovendo reflexões sobre invisibilidade social e a diversidade étnica da fronteira.

A exposição já circulou por diversas cidades brasileiras, incluindo Porto Alegre (RS), durante o Fórum Social Mundial e na Casa de Cultura Mário Quintana, além de Curitiba (PR).

O acervo completo do Museu da Imprensa de Foz do Iguaçu pode ser acessado pelo site oficial da instituição.

Luana Kampmann

Luana Kampmann

Equipe de jornalismo do Acontece Foz