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Inclusão na prática: Itaipu abre espaço para jovem neurodivergente em programa de aprendizagem

Parceria com a Apae de Foz do Iguaçu marca novo capítulo na política de inclusão social da binacional

Luana Kampmann

Luana Kampmann

03 de fevereiro de 2026
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Inclusão na prática: Itaipu abre espaço para jovem neurodivergente em programa de aprendizagem

A entrada de Ryann Mateus Marques de Lima, de 17 anos, no Programa de Iniciação e Incentivo ao Trabalho (PIIT) da Itaipu Binacional simboliza mais do que uma nova vaga de aprendizagem: representa um avanço concreto na inclusão de jovens neurodivergentes no ambiente corporativo. Pela primeira vez, a empresa integra ao programa um adolescente com deficiência intelectual, resultado de uma parceria inédita com a Apae de Foz do Iguaçu.

Três vezes por semana, Ryann cruza os portões da usina para atuar na Divisão de Microinformática, conciliando a experiência profissional com atividades na Guarda Mirim e aulas na Apae. A rotina exige organização, autonomia e responsabilidade — habilidades que ele vem desenvolvendo com entusiasmo. “Aqui eu aprendo bastante, conheço pessoas novas, ganho meu próprio dinheiro e posso ajudar minha família”, conta o jovem, que se desloca sozinho de transporte público e sonha em seguir carreira artística como ator.

No ambiente de trabalho, a adaptação tem sido natural. A supervisora Jonara Adriana Oliveira Americo destaca o desempenho e a rápida assimilação das tarefas. “Ele aprende rápido, é atento e já conhece boa parte da usina”, afirma. Ryann está em treinamento para atividades como cadastro de equipamentos de informática, mas, segundo ela, o aprendizado vai além da parte técnica. “Receber um adolescente no programa exige empatia, paciência e cuidado. É um processo humano antes de tudo.”

A parceria entre Itaipu e Apae surgiu a partir de um diálogo institucional sobre oportunidades reais de inclusão. Para Leonardo Correa Lugon, diretor social da Apae Foz e empregado da Itaipu, a iniciativa preenche uma lacuna histórica. “Não existiam, na cidade, programas de aprendizagem que incluíssem pessoas com deficiência. Essa experiência mostra que é possível e necessário avançar”, avalia.

O impacto, segundo Lugon, extrapola o ambiente profissional. “Quando falamos de inclusão no mercado de trabalho, falamos de autonomia, dignidade e mudança de vida — não só da pessoa com deficiência, mas de toda a família”, afirma.

A coordenação do PIIT destaca que o sucesso da iniciativa passa pelo envolvimento direto das equipes. Para Vinícius Ortiz de Camargo, coordenador do programa, o ponto de partida é o olhar sem rótulos. “O adolescente precisa ser recebido como adolescente, não como uma categoria. O convívio diário é o que quebra barreiras e naturaliza a diversidade”, explica.

Esse convívio, segundo ele, transforma também quem acolhe. “A presença de jovens neurodivergentes e de outros grupos historicamente excluídos provoca aprendizado coletivo e reduz estigmas. O caminho é conhecer para compreender.”

A assistente social da Itaipu, Andreia Pereira Duarte Trevisan, reforça que a inclusão precisa sair do discurso e se materializar em ações. “Quando abrimos espaço, estamos promovendo justiça social. As pessoas passam a enxergar a pessoa com deficiência como alguém que contribui, aprende e ensina”, destaca.

Para Jonara, a experiência deveria servir de exemplo. “Na Apae existem muitos jovens com potencial para atuar em ambientes corporativos. Eles são capazes, inteligentes e precisam apenas de oportunidade”, afirma.

Formação e proteção social

O Programa de Iniciação e Incentivo ao Trabalho é desenvolvido pela margem brasileira da Itaipu em parceria com a Guarda Mirim de Foz do Iguaçu. A iniciativa atende adolescentes de famílias em situação de vulnerabilidade social, garantindo formação profissional aliada à permanência na escola.

Os participantes recebem bolsa-auxílio equivalente a um salário-mínimo, além de vale-transporte, vale-alimentação, seguro de vida e assistência médica e odontológica. Atualmente, 71 adolescentes integram o programa, que desde 1988 já beneficiou cerca de 7 mil jovens.

Mais do que números, a experiência de Ryann sinaliza um movimento: inclusão não como exceção, mas como prática possível e transformadora.

Luana Kampmann

Luana Kampmann

Equipe de jornalismo do Acontece Foz