Pesquisa da UNILA revela que maioria dos jovens “nem-nem” inativos no Brasil é formada por mulheres sobrecarregadas pelo trabalho de cuidado
Estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Economia aponta que afazeres domésticos e cuidado não remunerado são os principais fatores ligados à inatividade feminina entre jovens de 15 a 29 anos
Luana Kampmann

As mulheres representam quase 70% dos jovens brasileiros classificados como “nem-nem” inativos — grupo formado por pessoas que não estudam, não trabalham e também não procuram emprego. O dado é resultado da pesquisa “Nem-nem nem tanto: o trabalho de cuidado invisibilizado das meninas brasileiras”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Economia da UNILA.
O estudo foi realizado pela mestra Karina Costa, sob orientação da professora Marcela Nogueira Ferrario, e identificou que a principal razão associada à inatividade feminina é a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
A pesquisa foi construída a partir da perspectiva da economia do cuidado, área teórica que analisa os impactos do trabalho doméstico e das atividades de cuidado — como cuidar de crianças, idosos e pessoas doentes — na reprodução das desigualdades sociais e de gênero.
Na análise dos dados, as pesquisadoras verificaram que o cuidado aparece como o principal fator relacionado à inatividade feminina, mesmo após o controle de variáveis como escolaridade, renda, raça, idade e região do país.
A dissertação utilizou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, referentes ao período de 2017 a 2024. O levantamento concluiu que as mulheres corresponderam, em média, a 69,69% dos jovens nem-nem inativos no período analisado.
Entre elas, os afazeres domésticos e as tarefas de cuidado surgiram como a principal justificativa para não buscar emprego. “Essas mulheres não estão procurando trabalho porque estão ocupadas demais trabalhando”, resume Karina Costa. “Só que é um trabalho que não é visibilizado e nem remunerado”, completa.
O estudo diferencia jovens que não estudam nem trabalham, mas procuram emprego, daqueles que estão fora da força de trabalho. Segundo as pesquisadoras, essa distinção é essencial para compreender a realidade das mulheres jovens no Brasil.
“Quando a gente olha especificamente para os jovens nem-nem inativos, percebe que existe um perfil muito característico. São majoritariamente mulheres, de baixa renda, pretas e pardas e, muitas vezes, residentes em áreas rurais”, explica Marcela Ferrario.
Karina destaca que a pesquisa também busca questionar interpretações simplificadas sobre o fenômeno dos jovens “nem-nem”. “Muitas vezes, existe uma culpabilização individual dessas jovens, como se fosse apenas uma escolha pessoal. Mas a pesquisa mostra que estamos diante de um fenômeno ligado às desigualdades estruturais do país”, afirma.
Sem renda, mas com muito trabalho
A pesquisa aponta que realizar tarefas domésticas e de cuidado aumenta em até 19,5 pontos percentuais a probabilidade de mulheres jovens estarem na condição de “nem-nem” inativas.
“A permanência feminina nessa condição não deve ser interpretada como ausência de atividade”, afirma Karina. “Na verdade, ela expressa uma sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado que acaba limitando o acesso dessas mulheres ao estudo e ao mercado de trabalho.”
O levantamento também identificou diferenças importantes entre homens e mulheres. Entre os jovens do sexo masculino, a principal justificativa para não trabalhar está ligada à ausência de oportunidades de emprego nas regiões onde vivem. Já entre as mulheres, predominam as responsabilidades domésticas e familiares.
“Na PNAD Contínua, quando essas mulheres respondem por que não estão procurando trabalho, a principal resposta é justamente estarem ocupadas demais com trabalhos domésticos e cuidado de pessoas”, explica Karina. “Isso muda completamente a interpretação sobre esse grupo.”
Outro resultado apontado pela pesquisa é a forte relação entre vulnerabilidade social e a condição de “nem-nem” inativo. As maiores incidências foram registradas entre jovens de baixa renda, moradores de áreas rurais e residentes das regiões Nordeste e Norte do país.
Segundo Marcela Ferrario, a ausência de políticas públicas e de infraestrutura social contribui para a manutenção desse cenário.
“Muitas vezes, essas jovens assumem responsabilidades de cuidado porque não existe creche suficiente, porque não há serviços públicos de apoio ou porque a infraestrutura disponível não atende às necessidades das famílias”, explica.
A docente ressalta ainda que o fenômeno permanece ao longo do tempo, mesmo diante das mudanças econômicas e sociais ocorridas no Brasil nos últimos anos.
“O mais preocupante é justamente a persistência desse quadro. Isso mostra que estamos diante de um problema estrutural, que continua reproduzindo desigualdades sociais e de gênero”, avalia.
Marcela também destaca a robustez dos dados utilizados no estudo. “Nós trabalhamos com uma base muito robusta do IBGE, construída ao longo de vários anos. Isso permite identificar padrões persistentes e compreender melhor as características desse fenômeno no Brasil”, afirma.
Ciência para qualificar o debate público
Para as pesquisadoras, estudos sobre economia do cuidado e desigualdade social contribuem para ampliar e qualificar o debate público sobre juventude, trabalho e gênero, além de auxiliar na formulação de políticas públicas.
“A culpabilização individual ignora as desigualdades estruturais que organizam esse fenômeno”, afirma Karina. “A gente precisa olhar para essas jovens entendendo o contexto social em que elas estão inseridas.”
A pesquisadora também ressalta a importância de ampliar a visibilidade de estudos ligados à economia do cuidado e às desigualdades de gênero.
“A ciência econômica ainda é um espaço muito masculinizado. Então, também é importante produzir pesquisas que tragam essas experiências e essas desigualdades para o centro do debate”, comenta.
Marcela Ferrario destaca ainda a relevância das bases de dados públicas produzidas por instituições brasileiras, como o IBGE, para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas.
“O papel da universidade também é transformar esses dados em conhecimento científico que ajude a compreender os problemas sociais do país”, conclui.
Luana Kampmann
Equipe de jornalismo do Acontece Foz






